21 de outubro de 2010

O Presente (livro velho com cheiro de novo)

                                          
                             
O Presente (livro velho com cheiro de novo)
                                                                                                                                 Leda Mota

De repente, Ela está na sala de aula. Dando ordens, repreendendo e mandando-nos sentar. Na mão traz um livro “Cartilha Sodré”, que depois do mês de agosto já líamos com certa fluência,(até Julho foi Caminho Suave), embora estivéssemos no primeiro ano primário ainda. Logo após vinha a leitura compartilhada.Cada um lia um pouco(sem gaguejar, e nisto eu era boa).O medo nessa hora tornava nossos corações acelerados.Medo de gaguejar,da risada dos colegas,da bronca que podíamos levar.Mas,no final,tudo dava certo.Não havia porquê ter tanto medo.Quase sempre recebíamos um “Muito bem"! Mas mesmo assim tínhamos muito medo>Alias,medo não,pavor...E este sentimento era tão forte, que uma vez uma de minhas coleguinhas  chegou a fazer xixi na sala de aula por receio de chegar até nossa professora e pedir para ir ao banheiro.
Hora de ir ao quadro negro e pôr uma resposta de um possível ditado que havíamos feito. Ai a coisa piorava... Além do medo tínhamos que passar pela vergonha de levantar de nossos lugares, irmos até a lousa e escrever (com letras horríveis, muitas inelegíveis) uma palavra ditada por Ela. E se errasse,era penoso ter que repetir trinta vez a mesma  palavra num caderno chamado de “Ditado”. Todos sentavam em filas, sempre arrumadinhas. Do inicio até o final da aula. Quando saíamos a sala estava "quase" impecável.No máximo algumas carteiras um pouco afastadas.mas limpa,asseada,como toda sala tinha que ser.
Apesar de tantos medos, uma coisa é certa. Foi ela quem me instigou a gostar de ler.
Todos os dias, no inicio ou final da aula lia para nós um de seus contos maravilhosos. Muitos deles tirados de livros que nunca encontrei.Ficávamos em silêncio.Quando percebeu que eu, já alfabetizada estava me apaixonado pelo ato de ler não teve duvidas: Deu-me de presente um livro velho, já com algumas “orelhas” e rabiscos que fora feito por um de seus filhos. Mas, que importava isto? Ela tinha tantos alunos, e foi para mim que Ela levou o presente. Tinha percebido que não bastava mais para mim, só ouvir suas histórias, eu já sabia ler e estava extasiada em desvendar o mundo da leitura. Foi o primeiro fato importante de minha vida, o primeiro presente e prêmio (mais tarde fui perceber que era isso) que ganhei. Ganhar da professora um livro velho. Mas velho mesmo? Para Ela talvez, para mim, novíssimo e cheio de mistérios a ser desvendados: “O Sobradinho dos Pardais”, este era o nome. E não era um livro fino. Tinha muitas paginas e poucas ilustrações. Para uma criança de sete anos e alguns meses, ler o livro era mais que um desafio, era quase impossível. Muita informação para quem estava iniciando ali o caminho das Letras.
Passei o resto do semestre lendo, aos poucos, lentamente, capítulo por capítulo do livro. Não foi fácil! Foi uma tarefa árdua e difícil.Mas venci! Li o livro todo. No final do ano outro presente: Deu-me um corte de tecido para que eu fizesse um vestido bem bonitoe usasse no Natal. Eu merecia,tinha ótimas notas e lia muito.Ou será que ela estava dando porque sabia que eu era extremamente pobre e que aquele seria meu único presente e vestido de muitos dias de festas em minha vida?
O fato é que, voltei a me encontrar com ela na terceira série. Agora eu já lia melhor, escrevia melhor e foi surpresa para mim quando ela, ao me ver disse: “Olha quem está aqui. Minha aluna favorita”. F-a-v-o-r- i-t-a!!!! Eu era aluna favorita dela e não sabia... Isto soou aos meus ouvidos como algo divino,maravilhoso.
Estudei mais um ano com Ela, ganhei muitos elogios, presentes (roupas novas e usadas que não serviam mais para sua filha), pedaços de bolos que levava escondido só pra mim, gibis do Recruta Zero, Tex e Fotonovelas. Mas....livro... Ela não me deu mais nenhum.
Mudei de escola. Pouco tempo depois Ela mudou de cidade. Nunca,mas nunca mais a vi,porém nunca a esqueci.Minha primeira e adorada PROFESSORA.
Muito tempo depois, sua filha apareceu em minha cidade, eu já era mãe, formada em Letras e lecionava como Ela. Foi então que tive noticias de minha musa após muitos anos. Fiquei sabendo que estava aposentada e morando em Sorocaba. Pedi-lhe que mandasse um abraço e que contasse que havia me formado professora. Licenciada em Letras. Certamente ao saber disso saberia que foi  por culpa,mérito,incentivo e por Ela que eu havia me tornado uma professora de “Letras”. Ela havia me mostrado o caminho...eu,como boa aluna...apenas continuei...